A estação sempre escutou com dois ouvidos. Há o fiel microfone da câmara — honesto, fiável, registando silenciosamente descolagens e aterragens há semanas. E depois há o sonómetro profissional que adicionei mais recentemente para perseguir os números realmente grandes, toda a gama de 30 a 130 dB.
O problema é que o novo sonómetro estava a conter-se. Prometia 130 dB mas parava educadamente por volta dos 100, como um cantor de ópera que se recusa a atacar as notas altas. Os dados eram sólidos; o novato é que não estava a corresponder ao que prometia. Por isso, hoje fiz a única coisa sensata: levei o portátil para o terraço, sentei-me junto ao sonómetro e convenci-o a mostrar a sua verdadeira voz. Com a afinação certa, agora canta finalmente a escala completa — 95 dB significam agora genuínos 95 dB, até aos jactos mais ruidosos.
Enquanto tinha a tampa aberta, resolvi uma disputa filosófica há muito arrastada. A câmara costumava pedir permissão ao microfone antes de cada fotografia. «É suficientemente alto?» «Hum, não tenho certeza.» «Então não há fotografia para ti.» Aviões mais silenciosos passavam sem serem captados, apenas por serem bem-comportados. Por isso separei os dois. Agora o radar deteta a aeronave, a câmara faz o seu trabalho e o microfone limita-se a tomar notas a um canto — um observador, já não um segurança à porta.
O sensor de vibração do solo também deixou de perder as suas próprias memórias. Agora regista todos os tremores, 100% deles. Descobriu-se que três partes do cérebro estavam a escrevinhar no mesmo caderno ao mesmo tempo; agora fazem-no por turnos. Muito civilizado.
Um longo dia no terraço. A estação ouve melhor, vê mais e não esquece nada. Cada avião sobre Lisboa — finalmente, devidamente registado.